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Padaria Espiritual: A diversão do fortalezense em fins do século XIX era o Passeio Público: vaivém de moças em saias rodadas, corpetes justos, carmim nas faces e rapazes, na calçada oposta, em fatiotas engomadas, incompletas se não portassem chapéu, colete e lapela em flor. A crescente circulação de pessoas e negócios na cidade estimulou o aparecimento de famosos cafés na Praça do Ferreira, logo tornando-se uma nova alternativa da sociedade. Nas mesas do Café Java, o primeiro a funcionar, de propriedade de Manuel Pereira dos Santos, tipo mais singular de Fortaleza, o popular Manuel Côco, se encontravam os chamados "bacharéis" - intelectuais de formação universitária - para longos debates sobre letras, entre eles Antônio Sales, Ulisses Batista, Tibúrcio de Freitas, Álvaro Martins, Temístocles Machado e Lopes Filho. Nestes encontros transparecia a insatisfação geral quanto ao marasmo literário em que a cidade se encontrava, resultando na criação da Padaria Espiritual, agremiação literária mais importante de Fortaleza, fundada por Leonardo Mota. Por ocasião das reuniões da Padaria, Mané Coco obsequiava seus amigos intelectuais com aluá e, às vezes, empinava enorme balão em que se lia o dístico "Padaria Espiritual". E então Mané Coco, de fraque e sem gravata, explicava aos basbaques circunstantes que o seu aerostato, subindo ao céu, ia dizer ao Reino da Glória p'ra quanto prestava a gloriosa "Padaria Espiritual do Ceará". A Instalação da Padaria Espiritual, entretanto, se deu no número 105 da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) e não no Café Java, como muitos podem pensar. Antônio Sales escreveu o Programa de Instalação, que acabou sendo transcrito em um jornal do Rio de Janeiro, o que deu grande status ao movimento. Seu lema era "alimentar com pão o espírito dos sócios e da população em geral". Os títulos nessa academia seguiam o padrão usado nas padarias reais: Forno: a sede do movimento Padeiro-mor: o presidente Forneiros: os secretários Gaveta: tesoureiro Investigador das cousas e das gentes: bibliotecário Amassadores: sócios Amassado a cada domingo, um jornalzinho de oito páginas intitulado O Pão circulou seus 36 irreverentes números até se finar, segundo dizia seu padeiro-mor, Antônio Sales, de ``caquexia pecuniária''. Na foto acima temos o encarte com a primeira edição do jornal criado pela Padaria Espiritual, em 1892. O Programa de Instalação não permitia que se usassem, em quaisquer publicações, palavras estrangeiras ou animais que não os nativos do Brasil, numa postura radicalmente nacionalista. A importância do movimento se deu pelo fato dele haver proporcionado a consolidação do Realismo e o nascimento do Simbolismo no Ceará. No período de funcionamento do Forno, juntamente com o periódico O Pão, foram lançadas importantes publicações e alguns livros de grande importância para a literatura brasileira como: Phatos (1893) de Lopes Filho Marinhas (1897) de Antônio de Castro Flocos (1894) de Sabino Batista Contos do Ceará (1894) de Eduardo Sabóia Cromos (1895) de X. de Castro Trovas do Norte (1895) de Antônio Sales Os Brilhantes (1895) de Rodolfo Teófilo Dolentes (1897) de Lívia Barreto Maria Rita (1897) de Rodolfo Teófilo Perfis Sertanejos (1897) de José Carvalho Em dezembro de 1898, depois de 6 anos de funcionamento, a Padaria "fecha". Nessa atmosfera fervilhante e paralelamente ao movimento da Padaria Espiritual, acontece a fundação da Academia Cearense de Letras, em 15 de agosto de 1896, quando, mais uma vez, os intelectuais locais valorizam-se com seu movimento de vanguarda, já que esta foi a primeira academia de letras do país, surgindo mesmo antes da própria Academia Brasileira de Letras. Em 1992, em comemoração ao centenário da Padaria Espiritual, outro grupo de escritores, artistas plásticos, músicos e amantes da arte em geral pôs a mão na massa e O Pão tornou a circular, como o seu ilustre antepassado, distribuindo os biscoitos finos da imaginação. Estatuto da Padaria Espiritual
• Fica organizada, nesta cidade de Fortaleza, capital da "Terra da Luz", antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Letras e Artes, denominada Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos, em geral.
• A Padaria Espiritual se comporá de um Padeiro-Mór (presidente), de dois Forneiros (secretários), de um Gaveta (tesoureiro), de um Guarda-livros na acepção intrínseca da palavra (bibliotecário), de um Investigador das Coisas e das Gentes, que se chamará Olho da Providência, e demais Amassadores (sócios). Todos os sócios terão a denominação geral de Padeiros.
• Fica limitado em vinte o número de sócios, inclusive a Diretoria, podendo-se, porém, admitir sócios honorários que se denominarão Padeiros-livres.
• Depois da instalação da Padaria, só será admitido quem exibir uma peça literária ou qualquer outro trabalho artístico que for julgado decente pela maioria.
• Haverá um livro especial para registrar-se o nome comum e o nome de guerra da cada Padeiro, sua naturalidade, estado, filiação e profissão a fim de poupar-se à Posteridade o trabalho dessas indagações.
• Todos os Padeiros terão um nome de guerra único, pelo qual serão tratados e do qual poderão usar no exercício de suas árduas e humanitárias funções.
• O distintivo da Padaria Espiritual será uma haste de trigo cruzada de uma pena, distintivo que será gravado na respectiva bandeira, que terá as cores nacionais.
• As fornadas (sessões) se realizarão diariamente, à noite, à excepção das quintas-feiras, e aos domingos, ao meio-dia.
• Durante as fornadas, os Padeiros farão a leitura de produções originais e inéditas, de quaisquer peças literárias que encontrarem na imprensa nacional ou estrangeira e falarão sobre as obras que lerem.
• Far-se-ão dissertações biográficas acerca de sábios, poetas, artistas e literatos, a começar pelos nacionais, para o que se organizará uma lista, na qual serão designados, com a precisa antecedência, o dissertador e a vítima.
• Também se farão dissertações sobre datas nacionais ou estrangeiras.
• Essas dissertações serão feitas em palestras, sendo proibido o tom oratório, sob pena de vaia.
• Haverá um livro em que se registrará o resultado das fornadas com o maior laconismo possível, assinando todos os Padeiros presentes.
• As despesas necessárias serão feitas mediante finta passada pelo Gaveta, que apresentará conta do dinheiro recebido e despendido.
• É proibido o uso de palavras estranhas à língua vernácula, sendo, porém, permitido o emprego dos neologismos do Dr. Castro Lopes.
• Os Padeiros serão obrigados a comparecer à fornada, de flor à lapela, qualquer que seja a flor, com excepção da de chichá.
• Aquele que durante uma sessão não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar no sábado café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina, pode ser dispensado da multa da semana seguinte.
• O Padeiro que for pegado em flagrante delito de plágio, falado ou escrito, pagará café e charutos para todos os colegas.
• Todos os Padeiros serão obrigados a defender seus colegas da agressão de qualquer cidadão ignáro e a trabalhar, com todas as forças, pelo bem estar mútuo.19) É proibido fazer qualquer referência à rosa de Maiherbe e escrever nas folhas mais ou menos perfumadas dos álbuns.
• Durante as fornadas, é permitido ter o chapéu na cabeça, exceto quando se falar em Homero, Shakespeare, Dante, Hugo, Goethe, Camões e José de Alencar porque, então, todos se descobrirão.
• Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à Fauna e à Flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.
• Será dada a alcunha de "medonho" a todo sujeito que atentar publicamente contra o bom senso e o bom gosto artísticos.
• Será preferível que os poetas da "Padaria" externem suas idéias em versos.
• Trabalhar-se-á por organizar uma biblioteca, empregando-se para isso todos os meios lícitos e ilícitos.
• Dirigir-se-á um apelo a todos os jornais do mundo, solicitando a remessa dos mesmos à biblioteca da "Padaria".
• São considerados, desde já, inimigos naturais dos Padeiros - o Clero, os alfaiates e a polícia. Nenhum Padeiro deve perder ocasião de patentear seu desagrado a essa gente.
• Será registrado o fato de aparecer algum Padeiro com colarinho de nitidez e alvura contestáveis.
• Será punido com expulsão imediata e sem apelo o Padeiro que recitar ao piano.
• Organizar-se-á um calendário com os nomes de todos os grandes homens mortos, Haverá uma pedra para se escrever o nome do Santo do dia, nome que também será escrito na Ata, em seguida à data respectiva.
• A "Avenida Caio Prado" é considerada a mais útil e a mais civilizada das instituições que felizmente nos regem, e, por isso, ficará sob o patrocínio da Padaria.
• Encarregar-se-á um dos Padeiros de escrever uma monografia a respeito do incansável educador Professor Sobreira e suas obras.
• A "Padaria" representará ao Governo do Estado contra o atual horário da Biblioteca Pública e indicará um outro mais consoante às necessidades dos famintos de idéias.
• Nomear-se-ão comissões para apresentarem relatórios sobre os estabelecimentos de instrução pública e particular da Capital relatórios que serão publicados.
• A Padaria Espiritual obriga-se a organizar, dentro do mais breve prazo possível, um Cancioneiro Popular, genuinamente cearense.
• Logo que estejam montados todos os maquinismos, a Padaria publicará um jornal que, naturalmente, se chamará O Pão.
• A Padaria tratará de angariar documentos para um livro contendo as aventuras do célebre e extraordinário Padre Verdeixa.
• Publicar-se-á , no começo de cada ano, um almanaque ilustrado do Ceará contendo indicações uteis e inúteis, primores literários e anúncios de bacalhau.
• A Padaria terá correspondentes em todas as capitais dos países civilizados, escolhendo-se para isso literatos de primeira água.
• As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.
• A Padaria desejaria muito criar aulas noturnas para a infância desvalida; mas, como não tem tempo para isso, trabalhará por tornar obrigatório a instrução pública primada.
• A Padaria declara desde já guerra de morte ao bendegó do "Cassino".
• É expressamente proibido aos Padeiros receberem cartões de troco dos que atualmente se emitem nesta Capital.
• No aniversário natalício dos Padeiros, ser-lhes-á oferecida uma refeição pelos colegas.
• A Padaria declara embirrar solenemente com a secção "Para matar o tempo" do jornal "A Republica", e, assim, se dirigirá à redação desse jornal, pedindo para acabar com a mesma secção.
• Empregar-se-ão todos os meios de compelir Mané Coco a terminar o serviço da "Avenida Ferreira".
• O Padeiro que, por infelicidade, tiver um vizinho que aprenda clarineta, pistom ou qualquer outro instrumento irritante, dará parte à Padaria que trabalhará para pôr termo a semelhante suplício.
• Pugnar-se-á pelo aformoseamento do Parque da Liberdade, e pela boa conservação da cidade, em geral.
• Independente das disposições contidas nos artigos precedentes, a Padaria tomará a iniciativa de qualquer questão emergente que entenda com a Arte, com o bom Gosto, com o Progresso e com a Dignidade Humana. Amassado e assado na "Padaria Espiritual", aos 30 de Maio de 1892. Seguem-se as assinaturas dos padeiros presentes, em número de dezoito, faltando, portanto, duas assinaturas.